Quem já realizou algumas sessões de acupuntura talvez tenha percebido uma situação curiosa: algumas agulhas permanecem exatamente no mesmo lugar durante todo o atendimento, enquanto outras parecem ficar mais superficiais com o passar do tempo e, eventualmente, podem até cair.
E é comum surgir a dúvida:
Será que o corpo está expulsando aquela agulha?
A resposta é mais interessante do que parece.
A agulha não está simplesmente parada no corpo
Quando pensamos em uma agulha de acupuntura inserida na pele, podemos imaginar que ela permanece imóvel durante os 20 ou 30 minutos de uma sessão.
Na prática, não é exatamente assim.
Nosso corpo continua em movimento mesmo quando estamos deitados e relaxados. Respiramos, movimentamos discretamente os músculos, mudamos pequenas tensões posturais e modificamos constantemente a pressão exercida sobre a pele e os tecidos.
Além disso, cada agulha é inserida com uma determinada profundidade e angulação, dependendo da região do corpo, do ponto escolhido e do objetivo daquele estímulo.
Por isso, algumas podem permanecer extremamente estáveis enquanto outras vão, aos poucos, ficando mais superficiais.
Existe uma interação entre a agulha e nossos tecidos
Talvez essa seja a parte mais interessante dessa história.
Durante muito tempo, a sensação de que determinadas agulhas ficam mais “presas” ao corpo foi algo percebido principalmente pela experiência dos acupunturistas.
Hoje sabemos que existe uma interação mecânica real entre a agulha e o tecido conjuntivo.
Pesquisas conduzidas pela médica e pesquisadora Helene Langevin e colaboradores demonstraram que, quando uma agulha é manipulada e rotacionada, fibras do tecido conjuntivo podem se reorganizar ao redor dela.
Esse fenômeno aumenta o acoplamento entre a agulha e o tecido e pode fazer com que seja necessária uma força maior para retirá-la.
Ou seja, aquela percepção que o médico tem durante a sessão de que uma determinada agulha está mais “presa” não é apenas uma sensação subjetiva.
Existe um fenômeno biomecânico acontecendo naquele local.
E por que algumas agulhas fazem justamente o contrário e acabam caindo?
Aqui precisamos separar aquilo que sabemos daquilo que ainda estamos tentando compreender.
A ciência estudou muito mais o fenômeno das agulhas que ficam retidas ou “presas” ao tecido do que o fenômeno das agulhas que lentamente se exteriorizam durante uma sessão.
Sabemos que fatores como profundidade e ângulo de inserção, movimentação do paciente, região do corpo e características dos tecidos podem influenciar a estabilidade de uma agulha.
Por isso, uma agulha mais superficial pode eventualmente se deslocar e cair.
Mas ainda não existe uma explicação científica única capaz de dizer exatamente por que determinada agulha caiu enquanto outra, colocada poucos centímetros ao lado, permaneceu no lugar.
Isso significa que o corpo rejeitou aquele ponto?
Essa talvez seja a pergunta mais comum.
Dentro da Medicina Chinesa existem diferentes maneiras tradicionais de interpretar a resposta do organismo às agulhas.
Mas, do ponto de vista científico, não existem evidências de que uma agulha cair signifique que o organismo “rejeitou” aquele ponto, que não precisava daquela agulha ou que o estímulo já havia cumprido sua função.
Na maioria das vezes, trata-se simplesmente de um fenômeno relacionado à interação entre a agulha e os tecidos.
E isso não significa que o tratamento tenha dado errado ou que aquela agulha não tenha produzido estímulo.
O corpo não é uma estrutura estática
Talvez essa pequena curiosidade ajude a entender algo maior sobre a própria acupuntura.
Durante uma sessão, não estamos colocando agulhas em uma estrutura imóvel.
Pele, músculos, fáscias, tecido conjuntivo, vasos e terminações nervosas formam um sistema vivo, dinâmico e constantemente sujeito a estímulos mecânicos e neurológicos.
A agulha interage com esse ambiente.
Algumas ficam mais firmes. Outras permanecem praticamente soltas. Algumas podem ficar progressivamente mais superficiais.
Para o paciente, pode parecer apenas uma agulha que caiu sobre a maca.
Para quem estuda acupuntura, é mais uma pequena demonstração de como ainda existe muito a compreender sobre a interação entre uma agulha extremamente fina e o organismo humano.
E talvez seja justamente aí que a Medicina Tradicional Chinesa e a ciência moderna tenham uma de suas conversas mais interessantes.
Referências
Langevin HM, Churchill DL, Cipolla MJ. Mechanical signaling through connective tissue: a mechanism for the therapeutic effect of acupuncture. FASEB Journal. 2001;15(12):2275-2282.
Langevin HM, Yandow JA. Relationship of acupuncture points and meridians to connective tissue planes. The Anatomical Record. 2002;269(6):257-265.
Langevin HM, Churchill DL, Fox JR, Badger GJ, Garra BS, Krag MH. Biomechanical response to acupuncture needling in humans. Journal of Applied Physiology. 2001;91(6):2471-2478.
World Health Organization. WHO benchmarks for the practice of acupuncture. Geneva: World Health Organization; 2020.





